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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Presenteando

Não vai dar tempo de nada
Mas no tempo que der
Que ao menos a gente se dê

Não vai dar tempo de tudo
Mas no tempo que der
Que a gente se dê ao máximo

Não vai dar tempo de muito
Mas no tempo que der
Que a gente se dê muito bem

Temos mesmo pouco tempo
E no tempo que já não der
Nos presenteemos com a lembrança
dos bons presentes que nos demos

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Salva-Vidas

A palavra se contorce
Para chamar atenção
Atrelada as páginas-anzóis
Não passa de uma isca
Pairando na bonança
As linhas  aguardam
São pautas de pesca
Parece comida, flutua

Mas é só papel e tinta
O leitor a espreita

Afim de se encher
Contra a correnteza
Abocanha a imagem
Fisgado pela ideia
É lançado à superfície
Peixe fora d’água
Se debate brusco
Ferido pelos ventos
Agora não tem volta
Que aprenda a respirar!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Janelas Afora

Sem preço ou prazo
a vista me cobra lembrar
que a cidade vive do dia
a renasce na madrugada
Sem jamais morrer
sem nunca ser nada
Nos livros é mentira
na rua já é verdade
O céu aberto nos adentra
Levamos os desaforos pra casa
e entre aforismos e novas gírias
casamos o que éramos
com tudo o que seremos
Independente de onde estamos
somos apenas o que somos
O que era pra ser não é
mas se soma ao que será
Somos a cidade no escuro
com as luzes a oscilar

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bom dia, sono

                Faz tanto tempo que eu não tenho problemas com meu sono que posso até dizer que nunca tive problemas com isso. Digo sono me referindo a hora de dormir e as horas em que durmo. Não sou de ter insônia, deitar, pra mim, é sinônimo de fechar os olhos e só abrir de manhãzinha. Eu também não ronco nem me debato. Quem dorme no mesmo cômodo que eu, dorme em paz. Sonambulismo, não consigo nem imaginar como é isso. Já ouvi muitas histórias de gente que enquanto dormia levantou, assaltou a geladeira, deu a volta no quarteirão, entrou em casa que não morava. Acaba passando pela minha cabeça que passa pela cabeça dos sonâmbulos uma certa vontade de aventura inconsciente. Se eu não me sentisse acuada pelo excesso de escuro e silêncio, eu bem que daria minhas voltas pelo condomínio, mesmo consciente, só pela aventura. Às vezes falo enquanto durmo, isso é verdade. Não sei com que freqüência. Durmo num quarto só meu, a maioria do que digo é dito pra ninguém. Uma vez meu pai veio dizer que me ouviu resmungar algo de madrugada, abriu a porta do meu quarto, além de prestar atenção no que eu dizia, anotou e me mostrou o registro depois. O que eu falei não tinha sentido nem relevância. Achei engraçado ele ter tido o cuidado de anotar pra não esquecer.
           Vejo como uma boa característica o peso desse meu sono. Tv ligada não me amola, o ronco alheio também não, bateção de porta pela casa passa despercebida aos meus ouvidos concentrados apenas no que eu acabo sonhando. Vai ver é isso, eu sonho muito, não só no sentido piegas de traçar planos e caminhos para a vida. Viajo a noite inteira, distraída, presenciando cenas que nem o cineasta mais pirado, tendo à disposição os efeitos especiais mais caros e o elenco mais bem pago de Hollywood seria capaz de desenvolver nem em uma década. É coisa que eu nem sei como contar. Porta de carro que vai dar na porta de entrada de casa que às vezes é meio que uma floresta, mas tem azulejo no chão e só tem gente da minha antiga escola andando por lá, e eu olho o rosto da minha mãe, mas na verdade é outra pessoa, e as vozes vêm misturadas, e o corredor de entrada do supermercado é infinito e todo bloqueado pelos caixas com filas enormes, quilômetros e quilômetros de filas e de corredor. Alguém tem que me acordar. Talvez eu esteja tendo um pesadelo, talvez a consciência da realidade esteja vindo pros meus olhos ainda fechados.
            Mesmo confusos, meu sonhos são leves e mesmo sendo leves os sonhos, meu sono é pesado, só consigo acordar mesmo depois de muita insistência. Tenho pena de quem acredita que falando meu nome e dizendo, hora de acordar, vai me pôr alerta em dois tempos. Nem o despertador, que é feito pra isso, consegue executar tal feito. Tem que cutucar, mexer no meu edredom-fortaleza, abrir a janela, se bem que nem o Sol, que é a estrela central do Sistema Solar, consegue me tirar da cama com velocidade.
              Me acordar é difícil, por isso eu digo, problemas de verdade eu tenho com meu sono. Digo sono me referindo àquela vontade que dá na hora de acordar, de agarrar o travesseiro pra nunca desgrudar do colchão, nem abrir os olhos. Vou ficando livre do edredom, mas cada pedaço de corpo que ele liberta se sente mais torturado. Entra o sol pela janela, o olho arde, a cabeça gira, não dá nem pra saber se o pensamento faz parte do sonho ou da realidade. Alguém diz, bom dia. Eu lembro, ah, realidade.. A boca amarga quase que precisa reconstituir os dentes. Com muito esforço, busco a voz lá na garganta que, ressecada, não consegue emitir mais do que um ruído rouco todo reticente, hm.. b..m di..
            Aí vem a vontade de espreguiçar. A preguiça dá uma trégua. O corpo parece que se reconstrói. Os braços ganham força até para levar as mãos aos olhos. A visão se restabelece. Ganho pernas para levantar da cama. Adeus travesseiro. A despedida é dura, às vezes corro de volta para mais alguns segundos aninhada. O calor, a preguiça, o horário, o horário! Salto da cama quase meia hora mais tarde. Mesmo assim a realidade só parece completa depois de um longo banho. O vapor no espelho do banheiro vai se dissolvendo, seco os cabelos enquanto vejo meu rosto pouco a pouco mais nítido. Agora sim, bom dia 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Objetivos Subjetivos

As ultimas semanas de dezembro chegam, sinal de que estamos chegando ao fim. Talvez seja o fim de um ciclo, junto com seu recomeço, ou o fim de uma era, ou simplesmente o fim de um ano. Essa época não vem isenta de significados políticos, econômicos e religiosos. De qualquer forma, o combo Natal + Ano Novo + Férias exerce influência inegável nos ânimos e desejos de muita gente.

Deixo as minhas ideias oscilarem entre racionais, supersticiosas e sentimentais. Não sei bem se é pelo pensamento, pelos olhos, ou pelo (mimimi) coração, mas o otimismo entra, junto com ele vêm as possibilidades, os planos e os medos, tudo mais claro. É mais do que uma folha nova no calendário, é um calendário todo novo.

Hora de analisar o que o acaso fez por mim durante esse ano e o que eu fiz com as sortes e azares que tive. Me conscientizar sobre onde estou depois de muitas decisões, atitudes, tensões, distrações, sucessos e equívocos dissolvidos nesses 365 dias.

Talvez eu recaucule a rota, talvez eu reforce meus planos já traçados. É assustador e gratificante saber que com o tempo fui conquistando autonomia para fazer isso. É muito importante também saber que tenho o apoio necessário para traçar e realizar meus sonhos, por isso eu não me sinto só, mesmo sabendo que as maiores consequências serão exclusivamente minhas

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Contra-audição

Se digo sim
posso estar querendo dizer talvez
Se digo talvez
posso estar querendo dizer não
Se digo não
posso estar querendo dizer mais tarde
Se digo mais tarde
posso estar querendo dizer nunca

Se digo nunca
posso estar querendo dizer que nunca se sabe
Se digo que nunca se sabe
posso estar querendo dizer que certamente
Se digo que certamente
posso estar querendo dizer que é possível
Se digo que é possível
posso estar querendo dizer que eu não sei
Se digo que não sei
posso não saber mesmo

Se eu não souber mesmo
posso querer não dizer nada
Se eu não quiser dizer nada
posso sorrir
Se eu sorrir
posso estar querendo ver você gargalhar
Se sorrir não funcionar
posso te contar uma piada idiota

Se eu te contar uma piada idiota
posso estar querendo fugir de um assunto sério
Se eu fugir de um assunto sério
posso estar querendo encará-lo
Se eu encarar um assunto sério
minha cabeça pode ficar cheia de dúvidas
Se eu ficar cheia de dúvidas
posso correr atrás das respostas
Se eu correr atrás das respostas
Podem me perguntar
se eu quero mesmo sabê-las
Aí eu posso dizer sim
Mas se digo sim...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quilômetros Passados


Se todos os quilômetros do mundo
fossem juntos medir o futuro
Trabalhariam a eternidade ao quadrado
e quando terminassem a medição
se partiriam em milímetros desiludidos
Pois a medida que acreditariam ter obtido
já seria a do passado

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Serra de Botucatu, onde fica?

O bairro era grande. Depois de quase duas décadas perambulando pelo lugar, algumas vezes com rumo certo, outras a esmo, ela ainda não sabia o nome de todas as ruas nem quais eram paralelas ou perpendiculares a quais.

Se um estranho lhe pedisse informação, as possibilidades seriam duas: forjar uma certeza e responder intuitivamente algo que provavelmente estaria errado e faria o estranho se perder ainda mais, ou pedir desculpas e forjar uma verdade, dizendo que não conhecia muito do lugar.

Na verdade, ela conhecia muito do lugar sim, só não sabia o nome das ruas nem como chegar onde não estava indo. Para se localizar por lá precisava da pesquisa simultânea. Usava pontos de referência que tinham muito mais a ver com suas lembranças do que com a geografia daquelas ruas, mesmo que tudo que lembrasse estivesse fortemente entrelaçado com essa geografia tão familiar.

“Segue reto nessa rua e vira na esquina onde eu e o garoto das andorinhas tatuadas no braço fizemos uma guerra de Cheetos na chuva quando eu tinha 15 anos”

Esse não é o tipo de informação que se dá, é o tipo de sentimento que se tem.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Depois da rotina engolir

E as ideias brilhantes sintetizadas nas melhores palavras vêm me visitar justo quando estou escovando os dentes atrasada para sair de casa ou durante um show, quando não existem canetas por perto. Surge então o conflito: boas ideias em horas ruins são mesmo tão boas assim? Dá um vazio esse negócio de não lembrar o que eu sei que já pensei. Essas palavras não escritas dissolvidas no meio da rotina vão pra onde? Elas ficam lá por quanto tempo? Voltam?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

50 e Poucos Minutos

Cinco de Outubro, quase oito horas da manhã, estou na escola, sentada na primeira carteira. A professora de Geografia está na minha frente falando um monte coisa para toda a sala, não viu que estou com fones nos ouvidos.
Agora está tocando Não é Sempre do Engenheiros do Hawaii.

Próxima música:
“Quanto tempo faz, uma semana atrás, no topo do mundo, na crista da onda, numa euforia de se estranhar”.

Política para desinteressados, esse é o título que dou para mais um discurso da professora Conceição “Você tem que tomar cuidado se você não tem capacidade de pensar”.

“Poesia é um porre” disse o Gessinger de dentro dos fones.

Não lembro de ter feito a prova que ela está comentando. Na verdade, lembro de muita pouca coisa.

“Eu quero saber se você vai além do óbvio” Ela nos questionou. “Eu quero saber se alguém vai além do obvio” Eu me questionei.

Hoje ela veio de verde, verde e azul, uma calça jeans clara – como ela é moderna, um sapato feio que eu achei bonito, brincos roxo e lilás – brilham de mais. Veste um jaleco que a deixa bem profissional, as unhas feitas, pintadas de vermelho. Ela se dedica a si mesma.

“Viver assim é um absurdo, como outro qualquer, como tentar o suicídio ou amar uma mulher” disse o Gessinger.

Mais uma vez o assunto é a vitória do Tiririca... É deprimente se você é brasileiro, é cômico se você não é, e só, poxa vida! A gente ainda nem sabe se ele vai assumir o cargo e todo mundo já se orgulha de dizer que perdeu a esperança no país.

“Tô apenas fazendo com que vocês raciocinem” É, eu não conseguiria, de forma alguma, raciocinar sem ela.

A aula acabou. Chegaram os alunos que sempre entram na segunda aula, não perderam muita coisa estando fora durante aula que acabou. Agora a sala está completa, a aula de Biologia pode começar.

38, 39, 40, presente!

“Se a TV estiver fora do ar quando passarem os melhores momentos da sua vida... "Paranóias" que se cruzam em Belém do Pará” Parece que o Gessinger ainda tem muito o que dizer.

Mesmo parecendo que essa aula não vai acabar nunca, é bom eu ir planejando minha próxima viagem... Curitiba, de um jeito ou de outro, agora ou depois. Vão acabar os ensaios da peça, eu vou ter meus finais de semana livres de novo. Vou sentir uma falta absurda da minha vida como está e das pessoas que estão nela.

“Tire o fiozinho, linda” disse Milena, a professora de Biologia. Adeus Gessinger.

Hora da aula. Fim do texto.

A imagem é uma foto aleatória da minha sala de aula em agosto de 2009.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Palavra por palavra pra dizer o que?

Guardo, intactos, comprimidos entre folhas pautadas, trechos de textos que na minha cabeça ficam dispersos e vulneráveis a tudo que penso

Não tenho o que dizer. Acredito nisso. Mas não me sinto assim.
Me sinto tão presa quanto distante de mim. E não é nítida a diferença entre prisão e segurança, distância e liberdade.
Trata-se do que espelho ao ter contato com os seres que abrigo. O contato com quem eu fui e com quem serei.
Nesse momento, mais do que em qualquer outro, sinto intenso o contato com quem eu não queria ser e mesmo assim fui e sou.
No entanto, tenho a lembrança de como é estar na pele de quem serei.

Data provavemente de 3 de agosto. Me disseram que a névoa no propósito faz parte da idade


Foto: El Tigre, Bs. As. Argentina (jul 2010)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nada não

Tenho pensando muito em nada, porque tudo me agrada tanto e eu não tenho tido paciência para confusões. Lá vem o lado abstrato das coisas que eu imagino além dos fatos.

Acordei em um lugar vazio, absolutamente vazio. Ao meu redor nada era tudo o que havia, o maior nada que se pode imaginar estava lá, refletido nos meus olhos, cercando meu corpo, passando por entre minhas pernas, entre meus dedos, por baixo de meus braços. Sobre meus ombros não havia nada, em minha cabeça não havia nada, nada. Eu não via nada, não me lembrava de nada, nem imaginava nada. Eu estava no centro de uma lacuna, que nem centro tinha, pois essa lacuna também era nada. Nada me acompanhava, nada me acontecia. Todo esse nada era maciço, nada estava, nada era. Lá estávamos apenas eu e o vácuo ab-so-lu-to.

O chão não estava lá, e as paredes também não existiam. Não posso dizer exatamente a cor do que me envolvia, eram muitos tons, com muitas formas, diversas luzes em diversas intensidades. Dizendo assim, parece até que chegava a ser alguma coisa, mas para quem estava lá, era nítida a sensação de que não era nada.

O tempo passava como se escorresse, mas também passava como se voasse. Acho que era assim mesmo, o tempo corria de uma maneira dinâmica. Escorria como uma cachoeira e alçava vôo como uma águia. E de tanto nada que havia no mesmo lugar, o tempo parecia visível e eu sentia sua passagem mais presente, veloz e imperativa.

Parada eu olhava para minhas mãos e podia ver minhas unhas crescerem. Sentia cada fio de cabelo se desprendendo de minha cabeça, e eu via os fios ultrapassando o comprimento de meus ombros. Sentia os fatos sendo descontados de meu futuro, a idade me tomava o corpo, trazia-me rugas e cansaço, minha mente envelhecia sem muito tempo de amadurecer. O tempo que era a única coisa tão presente quanto eu, num lugar como aquele, só ousava mudar a mim, fora isso, não modificava mais nada, pois lá, nada havia.

É, brisei..Ah, sobre a continuação do episódio onde perdi parte da minha audição: já fiz os exames, acho que lembro o que tenho a dizer sobre, mas só vou postar depois de entregá-los para o médico analizar. O fato é que o pior já passou e com o resto estou convivendo

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Suposições

               É assim, as sete e meia da manhã de qualquer dia útil. Derretida pelo sono, subo a rua junto a dezenas de desconhecidos. No sentido contrário vê-se mais algumas dúzias de pessoas que também não sei quem são. Acredito que vejo todos, noto que olho para alguns, sei que reparo em poucos. Nunca sigo ninguém, mas admito que penso no que uns e outras farão. A partir daí, sigo imaginando, o antes, o durante e o depois, passo a passo:


               Ela acordou com sono. O cansaço de hoje era o mesmo que sentia na noite anterior, ao se deitar. Pela manhã, o frio agravava o desânimo. Era uma daquelas pessoas que prefere dias de sol e não sabe apreciar a neblina que impregna as manhãs dessa época do ano. Quem notou a névoa que pairava na janela, fui eu; observar a paisagem não fazia parte de seu sistema de atos automáticos.
               Cambaleou para fora da cama. No banheiro, prendeu os cabelos, despiu-se e foi direto para o chuveiro. O banho desconfortável, regado à água morna não durou mais que 5 minutos. Enxugou-se sem muita atenção e, ainda úmida, vestiu-se. Por ultimo, jogou sobre os ombros um volumoso casaco de cor amarelo-mostarda (tivesse pegado outro casaco de seu armário e eu provavelmente não estaria redigindo tais imagens).
               Mochila nas costas, sacola em punho. Saiu de casa e trancou o portão pensando no café da manhã que tomaria no refeitório da firma onde está empregada ha mais ou menos cinco anos. Já desperta, teve sua primeira reflexão não-rotineira, achou seu quintal demasiado pequeno; ao meu ver, ele era proporcional as suas presentes aspirações.
               Olhou para seus calçados gastos e partiu. Mirando apenas o chão, atravessou algumas ruas, deixou para trás uns poucos quarteirões. Até que ao virar uma esquina entrou na rua onde, segundos depois, seria vista por mim.
               Reparei no casaco, nos sapatos gastos e no cabelo preso. Por não ter memória de suas orelhas, lhes atribuí um par de brincos pequenos que em minha mente também não têm forma definida. Nossos olhares não se cruzaram, nem cheguei a ver seus olhos, imagino-os cor-de-vime, muito claros, porém castanhos. Sobre sua idade, corro o risco de estar errada, acredito que tenha entre 33 e 35 anos. Tal informação jamais poderá ser confirmada; logo, não me contradirão; então, afirmo que já havia completado 34 anos de idade, ainda ouso comentar que seu trigésimo quinto aniversário será daqui três meses e onze dias.
               Passamos muito rápido uma pela outra, tempo suficiente para plantar em mim a semente de suas sensações e história. Ela continuou andando, eu fiquei para trás.
Pude imagina-la chegando no fim da rua; indo para a estação de metrô superlotada, esperando na fila para passar a catraca, descendo a escada rolante, aguardando o trem antes da faixa amarela na plataforma tumultuada, entrando no vagão abarrotado de mais trabalhadores exaustos. Comparei nossas impressões: o que para mim seria uma experiência inconveniente e desesperadora, para ela, é um hábito necessário. Cercada de gente por todos os lados, seu corpo pende para frente e para trás e mesmo sem se segurar nas barras, não corre risco de cair. O ambiente está absurdamente lotado e abafado e barulhento. Ela se sente deveras desconfortável, mas não lhe passa pela cabeça que a situação poderia ser outra, melhor ou pior.
               Meia hora mais tarde, salta do vagão e depois de deslizar por algumas escadas rolantes, vê novamente a luz do sol. No sol ela repara e sente a temperatura mais elevada, tira o casaco, agradece em voz alta o calor de agora; muito provavelmente agradeceu a Deus, mas como não quero criar teorias sobre suas crenças, pode ser que esteja apenas dando graças ao homem do tempo que apareceu no telejornal de ontem à noite dizendo que sol reapareceria ainda pela manhã e que na grande área clara, que ia do extremo sul do país a oeste do Mato Grosso do Sul, a temperatura teria elevação de mais de quatro graus Celsius.
               Eu nunca tinha imaginado essa firma, ela perdeu a conta de quantas vezes entrou lá. É durante o horário de entrada que pressinto mudanças em sua vida. Aroudo, homem de meia idade recém-divorciado vindo do interior do Paraná acabou ser contratado pela firma como chefe de manutenção. Logo no refeitório, os dois se entreolham tímidos. Ele se apresenta meio bronco e desajeitado, ela finalmente se dá o direito de sorrir cordialmente e sem querer, sente sua mente divagando sobre futuro e felicidade...
               Nesse mesmo momento, na escola, já estou no início de minha segunda aula.

               Deixo o resto da história por conta da personagem. Só espero que depois desse encontro ou por outro motivo extraordinário ela tenha, em breve, sonhos maiores do que seu pequeno quintal, também gostaria que ela desenvolvesse ousadia para realizá-los.

               A imagem é de Adams Carvalho, Ilustrador com um estilo incrível a quem admiro a beça

terça-feira, 25 de maio de 2010

Cinemória

Assistindo mais um vez o filme A Via Láctea de Lina Chamie ouço a personagem de Alice Braga, Julia, citando um trecho de Otelo


“Aquele que foi roubado, quando sorri, furta algo do ladrão, e rouba a si mesmo quem se consome em mágoa inútil”

Traduzido do trecho original: “The robb'd that smiles steals something from the thief; He robs himself that spends a bootless grief”
Shakespeare é Shakespeare e vice-versa, esta ultima máxima li em um outro blog que também falava sobre a cena.

Achando tudo isso muito interessante, resolvo chacoalhar o Tapete através de um post que, (apenas) para mim, é extremamente útil.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

As De Verão

...que as férias de julho são um respiro fora do convívio escolar, e as férias de dezembro são um mergulho na convivencia social, pessoal e familiar.


E é dada a largada para o início do melhor período do ano. Todos os estudantes, satisfeitos, exaustos, preguiçosos, estressados, desanimados ou simplesmente ansiosos pelo final do ano letivo, depois de tanto tempo à postos, partem em disparada na direção do pit stop. Deixam para trás as aulas, os professores, as provas. Abandonam até a sempre esperada hora do intervalo e o convívio diário com os colegas de classe. O despertador, que durante o ano soava toda manhã antes das seis horas, agora come a poeira levantada pelos jovens saturados do dia-a-dia escolar.

Se para uns, férias é um período para refletir, planejar e se afastar das complicações e obrigações do cotidiano. Para outros, o recesso de dezembro é a melhor época para executar antigos planos, tirar da prancheta o projeto de concertar aquele banco de madeira no jardim do quintal.

Para mim, férias significam nada mais do que as duas necessidades supridas ao mesmo tempo. Época útil para digerir os grandes, pequenos, felizes e tristes fatos do ano que acaba em alguns dias, bolar aquelas velhas táticas de uso pessoal para que em 2010 não sejam cometidos os erros de 2009. Além de refletir, também é muito bom ter esses dois meses de ósseo para agir. Não que eu tenha um banco a ser concertado no meu quintal, mas tenho muitas outros projetos do tipo para concluir: peças de tricot a alguns pontos do fim, canções que estão lá no violão me esperando para serem tiradas, textos escritos pela metade, livros lidos até parte do terceiro capítulo, uma lista de filmes para alugar, um monte de gente com quem quero passar mais tempo e por aí vai.

O fato é que agora que estou menos ocupada, os dias parecem mais longos e os compromissos mais interessantes. Minha mente não parece capaz de armazenar tudo que processo. Pelo menos posso observar os fatos mais atentamente, refletir melhor sobre o que vejo e escrever com mais freqüência. Daí a criação de mais um blog, para expressar as pirações e idéias que passam pela minha cabeça de adolecente cansada descansando e contar o que vejo durante essas férias tãao esperadas.
Nesse clima de reflexão e produtividade estendo meu tapete laranja..
Bem-vindos!

sábado, 17 de outubro de 2009

Úmido

É que quando chove, a primeira coisa que eu faço é fechar as janelas. A segunda, é correr pro quintal, pra presenciar a tempestade, lavar a alma e esperar o sol sair.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Beloucubista

Não digo tudo. Pois, se dissesse, o que me sobraria para viver?
É uma experiência única ver-te devorando aos poucos as pistas que entrego. Migalhas de mim que de grão em grão vão compondo uma nova imagem de tudo que sempre fui.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tipo eu

Durmo centenas de horas, caminho milhares de quilômetros, mofo durante dias na frente da televisão, me afogo por meses dentro de livros e afogo décadas de músicas em mim, como toneladas de alimentos sutilmente contaminados e convivo com multidões de pessoas potencialmente homicidas, talvez suicidas. Penso em tudo a todo instante, mas sempre esqueço dos detalhes: as horas, os dias, quantidades e ordens etc..
Percebo que quanto mais me desapego das letras, melhor compreendo as palavras.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Meio não

Ocultar uma verdade em si
é gritar uma mentira ao mundo
Mas a incerteza
acaba por tornar tudo mais honesto

A confusão de fora, nada mais é
do que a sinceridade de dentro
Duas faces do mesmo rosto,
libertando e recolhendo sorrisos


A multidão de pontos de vista
vai guiando um par de olhos
levando o corpo  onde há mente